O Negro Theodoro Sampaio ajudou a integrar o país



Livro revela trajetória do intelectual negro que teve papel ativo na transformação do Brasil nos séculos 19 e 20


LILIA MORITZ SCHWARCZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

Theodoro Sampaio (1855-1937), para qualquer paulistano que se preze, é nome de rua, e das mais populares. Já para os baianos, lembra município ou nome remoto.
Poucos conhecem vida e obra desse intelectual que participou ativamente da agenda política, cultural e social do país entre finais do 19 e inícios do 20.
Engenheiro de profissão, atuou também como geógrafo, urbanista, historiador, cartógrafo, arquiteto, etnógrafo e gravurista.
Foi intelectual polivalente, à semelhança de boa parte de sua geração que durante o Império viu nascer um Estado moderno, mas carente de profissionais aptos.
Não por coincidência o país converteu-se em paraíso de juristas, magistrados e de um grupo que tomava para si a tarefa de erigir nova realidade institucional.
E o papel dos engenheiros da Escola Central de Engenharia Militar -Politécnica em 1874- foi fundamental.
Era preciso mapear e integrar o país; desbravar os sertões desconhecidos; urbanizar as cidades; cuidar dos transportes e dar ao país um ar civilizado.
Mas há ruídos nesse processo e no caso particular dessa personagem. Theodoro Fernandes Sampaio nasceu em 1855 na zona da rural de Santo Amaro da Purificação, Bahia.
Era mulato, filho provável de um senhor de engenho -mas cuja paternidade nunca foi declarada- e de uma escrava de afamada beleza.
Por conta de sua paternidade presumida, jamais foi escravo, mas seus irmãos sim. Assim, sua ascensão social esteve ligada a um processo mais abrangente que implicou a promoção de quadros para o Estado; já sua origem lembra situação tão antiga como ambígua.
Durante o Brasil Imperial (1822-1889) conheceu-se pequena abertura, que permitiu a presença de alguns poucos pretos e mulatos na corte. Mas tal inserção foi minoritária e problemática.
Não por acaso Sampaio silenciou sobre sua paternidade, como foi "discreto" acerca da história de sua família, ainda mais de sua mãe e irmãos, por quem, ao que tudo indica, pagou pela liberdade.
Aí está mais uma história de um cidadão negro a comprovar o sucesso possível, mas também seu custo elevado. Há sempre acidentes e episódios de preconceito -expressos ou ocultos- a calçar tal tipo de trajetória.
E é em torno desse destino improvável que se detém Ademir Pereira dos Santos, em livro belíssimo, ricamente ilustrado, parte das publicações patrocinadas pela Odebrecht.

ATUAÇÃO
Nesta obra, que conta com excelente introdução de Maria Alice de Carvalho, estão reproduzidos desenhos, diários e mapas feitos por um intelectual comprometido. De 1878 a 1886 atuou como funcionário da coroa nos Ministérios dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.
Nessa condição integrou a Comissão Hidráulica, que tinha como objetivo ampliar o porto de Santos e organizar a navegação no São Francisco, unindo-o aos portos da Bahia, Pernambuco e Rio.
Num segundo momento, e até 1904, fez parte da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, quando estudou a situação do rio Paranapanema.
Na capital destacou-se como urbanista e sanitarista e ajudou a criar o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1894. No início do século 20 voltou à Bahia, onde dedicou-se a novos projetos sanitários.
Por lá virou deputado, tomou parte nos debates da cidade e fundou novo Instituto Histórico e Geográfico, dessa vez o da Bahia.
Criador de novidades e tradições, Sampaio é caso exemplar nesse contexto de mudanças rápidas: monarquista declarado, atuou sem pejo na República.

REGISTRO ELOQUENTE
O fato é que suas obras sobre navegação, povos indígenas e saneamento, apesar de datadas, converteram-se em registros eloquentes de um Brasil que começava a se desenhar e reconhecer. Tantas qualidades, aliadas a uma pesquisa acurada, fazem do livro leitura obrigatória para todo aquele que deseja entender este país que, como dizia Tom Jobim, "não é para principiantes".
Quem sabe o autor poderia ter sido mais econômico nos elogios ou na reiteração dos legados; afinal, Theodoro Sampaio é personagem fundamental até em sua ambivalência: na sua vida pessoal marcada pela tragédia ou nas fotos que o retratam cada vez mais branco.
Aí está o testemunho de um intelectual negro que, sem negar sua cor, silenciou sobre o passado e naturalizou uma certa igualdade, mesmo que às custas da história, que conhecia tão bem.


LILIA MORITZ SCHWARCZ é professora do departamento de antropologia da USP

THEODORO SAMPAIO - NOS
SERTÕES E NAS CIDADES


AUTOR Ademir Pereira dos Santos
EDITORA Versal Editores
QUANTO R$ 190 (392 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo