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Quilombolas mostram sofrimento além da tragédia na
BR-122
Uma semana após acidente que matou oito
remanescentes de escravos no Norte de Minas,
moradores de comunidades revelam que sofrimento se
somou ao desemprego, seca e pobreza
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Mortos em acidente com grupo quilombola
também eram vítimas da pobreza, da seca e do
desemprego |
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Catuti
– Os moradores de Barreiro Branco, distrito de
Catuti, no Norte de Minas, celebram nesta
sexta-feira uma missa de sétimo dia em homenagem às
nove pessoas que morreram no acidente com uma van no
último sábado na BR-122, em Janaúba. Oito eram
integrantes de um grupo de danças folclóricas
formado pelas comunidades quilombolas do Vale do Rio
Gorutuba e um era o motorista do veículo. Eles
estavam a caminho de Montes Claros e iriam se
apresentar nas Festas de Agosto. Na semana seguinte
à tragédia, o Estado de Minas percorreu a região
onde vivem os remanescentes de escravos e constatou
que o sofrimento se somou aos problemas vividos por
um povo acostumado com a pobreza, a seca e a falta
de emprego.
Vítimas de tragédia no Norte de Minas serão
enterradas neste domingo
Van capota e deixa nove mortos e dez feridos no
Norte de Minas
São cerca de 5 mil pessoas, ou 750 famílias,
espalhadas por 31 comunidades rurais localizadas às
margens dos rios Gorutuba, Serra Branca e Ramalhudo,
numa região de confluência entre seis municípios:
Catuti, Gameleira, Janaúba, Jaíba, Monte Azul e Pai
Pedro. A seca, para Jorge Antunes Barbosa, de 48
anos, morador de Malhada Grande, é um castigo
imposto aos quilombolas e a outras milhares de
pessoas do Norte do estado. Ele relata que no fim do
ano passado fez uma roça. Plantou 1 hectare de milho
e feijão. “Na hora de a roça vingar, faltou chuva e
não colhi praticamente nada”, lamenta o pequeno
agricultor, cujo pai, Porcílio Antunes Barbosa, de
73 anos, morreu no acidente de semana passada.
Sem colheita
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Jorge Antunes perdeu o pai no acidente e
mostra o prejuízo que teve com a seca deste
ano. Posto de saúde está pronto, mas faltam
equipamentos para funcionar |
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Simão de Souza, de 70 anos, quilombola da comunidade
de Santa Rita, perto de Malhada Grande, conta que
viveu o mesmo drama da estiagem. Ele disse que fez o
plantio de meio hectare, mas não conseguiu colher
nada de milho e apenas três sacos de feijão. “Era
para ter colhido pelo menos uns dez”, lamenta. Simão
ainda consegue se lembrar de uma época em que havia
fartura de água na região. “Existiam muitos brejos
onde a gente plantava arroz. Hoje, água pra valer
mesmo só existe na época das chuvas”, descreve o
morador.
Mas não é só a seca que leva tristeza aos quilombos
do Norte de Minas. Eles também convivem com a
ausência de serviços públicos. Em Malhada Grande,
por exemplo, um prédio seminovo, mas abandonado,
evidencia o problema. A construção foi concluída em
2008 e seria destinada a um posto de saúde que nunca
funcionou, por falta de equipamentos. De acordo com
os moradores, existem prédios que seriam para a
saúde pública que estão ociosos em cinco localidades
de Catuti. A prefeitura da cidade, conforme os
habitantes, alega falta de recursos para a compra de
materiais que colocariam as unidades em
funcionamento.
Longe do SUS
Enquanto a saúde não vem, os obstáculos para
chegar até ela são grandes. O atendimento só é
oferecido diariamente na sede do município, que fica
a 34 quilômetros das comunidades. Francelina Corrêa
de Souza, casada com Jorge Antunes, com quem tem
quatro filhos, reclama que precisou ir até a cidade
em busca de tratamento dentário. “Fui lá duas vezes,
mas só consegui arrancar um dente”, conta Francelina,
mostrando os dentes estragados.
Sem serviços básicos, os moradores das comunidades
optam por buscar uma vida melhor na cidade grande. E
o destino escolhido pela maioria é São Paulo. Rufino
Fernandes dos Reis, que mora em Barreiro Branco,
conta que seus três filhos, Ailso, Alenilso e
Roseli, foram para a capital paulista em busca de
emprego. “Eles tiveram que sair porque aqui não dá
para ficar”, disse. A mulher de Rufino estava na van
que bateu na rodovia e escapou ilesa. Mas perdeu o
pai, Mariano Matos da Silva, de 68, na tragédia.
Sofrimento em um lugar e no outro também. Roseli, de
26, filha de Rufino, trabalha como atendente de uma
lanchonete na capital paulista e conta que todos os
dias acorda às 4h30, pega dois ônibus até chegar ao
serviço, onde tem que bater cartão por volta de 7h.
Só retorna para casa, na Zona Leste, às 20h. “Se eu
pudesse, iria continuar morando com meus pais, mas
não tem emprego na região”, afirma. Elciene Antunes
Silva, de 26, é outra jovem da comunidade quilombola
que foi procurar trabalho em São Paulo. Ela também
conseguiu emprego em uma lanchonete e trabalha entre
as 20h e a 1h. Solteira e mãe de um filho de 1 ano,
ela chegou a iniciar o curso de pedagogia em Montes
Claros, mas trancou por falta de dinheiro. Tanto ela
quanto Roseli voltaram à terra natal para sepultar
os parentes.
Grupo folclórico próximo do fim
Mariano Matos da Silva, de 68 anos, era pai de nove
filhos e líder dos quilombolas de Barreiro Branco.
Era ele quem chefiava o grupo de danças folclóricas
da comunidade, que, após as mortes, deve acabar.
Elcimar Antunes da Silva, filha de Mariano, diz que
agora não há mais estímulo para continuar. Com 12
integrantes, o grupo mostrava religiosidade e
rituais de origem africana por meio de dança
batuque, cantos e sapateados nas festas das cidades
vizinhas, especialmente nos dias dos Santos Reis, em
6 de janeiro, São Pedro, em 29 de junho, e São
Lourenço, em 10 de agosto. Na última semana, eles
iam se apresentar pela quarta vez nas Festas de
Agosto de Montes Claros.
Com o possível fim do grupo folclórico, os
quilombolas tendem também a perder a força de
reivindicação. “O grupo de batuque vítima do trágico
acidente, tendo à frente o senhor Mariano, uma das
principais lideranças do povo gorutubano, promovia
com suas apresentações a visibilidade da comunidade
e tinha como propósito a garantia dos direitos da
comunidade quilombola, sobretudo os direitos
territoriais”, avalia Aderbal Costa Filho,
antropólogo que fez um doutorado sobre o povo
gorutubano na Universidade de Brasília (UnB), em
2008.
Além da preservação da cultura, Mariano tentava
buscar melhorias para um povo que, de acordo com os
estudos do professor Aderval Costa, a partir da
década de 1950 passou a viver confinado, com grande
parte de suas terras tomadas por grileiros.
Estima-se que as comunidades do Vale do Gorutuba
ocupem cerca de 47 mil hectares, mas apenas 3% deste
total estão com os quilombolas. O restante está com
fazendeiros, sitiantes e especulares. Nas casas das
famílias, a água consumida vem de cisternas de
captação de água da chuva, um dos benefícios
alcançados pelo antigo líder. “Mas até cesta básica
ele arrumava para o pessoal daqui”, relata Germano
Cardoso dos Anjos, de 62, também morador da região.
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Mortos em acidente com grupo quilombola
também eram vítimas da pobreza, da seca e do
desemprego |
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Saiba mais...
O que são quilombolos
Os quilombos são locais que abrigavam escravos
que fugiam dos senhores desde os primeiros tempos do
período colonial. Hoje, essas comunidades,
remanescentes da época da escravidão, existem em
pelo menos 24 estados brasileiros. Quilombolas
habitam o Norte de Minas Gerais desde meados do
século 18. A história e a pobreza enfrentada pelo
povo que se instalou em Gorutuba foi estudada em
2008 pelo antropólogo Aderval Costa Filho. A região,
segundo ele, tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
de 0,54, inferior ao Nordeste brasileiro - 0,548,
sendo uma das localidades mais pobres do país. O
grupo folclórico envolvido no acidente contava com
moradores da região de Barreiro Branco e de Malhada
Grande, em Catuti. No mesmo local, outra tradição é
preservada: o trabalho em um antigo tear, onde se
produzem cobertores de algodão de forma artesanal,
como mostra Avelina Antunes.
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